Next Billion Users

O conceito de NBU: Next Billion Users e o que isso significa em termos práticos de como analiso que UX, negócios e desenvolvimento devem ser impactados e como o Brasil está neste contexto

# Next Billion Users definido

“Bilhões e bilhões”

Carl Sagan[^1]

Bilhões. Parece que culturalmente estamos um tanto quanto obcecados com o termo, com esta quantia. Quando uma startup atinge o patamar de ser avaliada em bilhões, temos os nossos unicórnios do século XXI :unicorn:, alguns inclusive em nosso país. Existem também os bilionários, esta classe especial de indivíduos no planeta, com uma população por volta de 2.604 segundo o último censo. Big Data se trata literalmente de lidar com tantos data points que facilmente se chega aos bilhões e bilhões. Impactar “um bilhão de usuários” se tornou um objetivo para muitos círculos de empreendedorismo. Culturalmente até mesmo dramas estão criados ao redor dessas figuras, o mais explícito chamado exatamente Billions.

E ainda assim é um número que não conseguimos processar em termos práticos, é muito abstrato, somente com algumas comparações é que conseguimos entender a magnitude de tal número. Um milhão, que é outro número monstruoso, de segundos, equivale a aproximadamente 12 dias. Então se você ganhar 1 real a cada segundo, em pouco menos de duas semanas, você vai ter atingido seu primeiro milhão. Parece ser promissor o seu futuro rumo ao bilhão ganhando um real por segundo, não? Pois bem, ganhando um real a cada segundo você deve atingir um bilhão em aproximadamente 32 anos. Pelo menos pode-se dizer que assim você vai conseguir ter uma boa aposentadoria. E, pelo lado bom, baseado em nosso contexto, alguma aposentadoria.

Nos círculos de tecnologia começou-se muito a falar dos NBU (adoramos siglas, não é mesmo?[1]), o Next Billion User, um Novo Mundo a se conquistar navegando pelos mares da Internet. Basicamente se refere ao número potencial de entrada de novos usuários que no momento não estão conectados com a Internet.

# Fonte dos dados

A principal fonte aqui utilizada é o agregado de dados do Digital trends 2020: Every single stat you need to know about the internet publicado no The Next Web neste dia 30 de janeiro, 2020, agregando fontes de diversas fontes diferentes. A apresentação completa em toda sua glória de 247 slides, foi disponibilizada no SlideShare.

# O lugar do Brasil

O Brasil aparece como nono em números absolutos de pessoas não conectadas com a Internet com 29%[2], representando, 61.423.295 pessoas. A lista completa é esta:

  1. India (50% - 685.597.071)
  2. China (41% - 582.063.733)
  3. Paquistão (65% - 142.347.735)
  4. Nigéria (58% - 118.059.925)
  5. Bangladesh (59% - 97.427.352)
  6. Indonésia (36% - 96.709.226)
  7. Etiópia (81% - 92.385.728)
  8. Rep. Dem. do Congo (81% - 71.823.319)
  9. Brasil (29% - 61.423.295)
  10. Egito (46% - 46.626.176)

Dos cinco primeiros em números relativos, todos ao menos 90% da população não possui acesso à internet:

  1. Coréia do Norte (100% - 25.722.103)
  2. Sudão do Sul (92% - 10.240.199)
  3. Eritréia (92% - 3.228.429)
  4. Burundi (90% - 10.556.111)
  5. Somália (90% - 14.042.139)

Ainda que represente 29% de nossa população total, 61 milhões de pessoas é um número gigantesco de pessoas. É um número maior que toda a população do estado de São Paulo (44 mi). Ou se prefere exemplos mais distantes, quase a população da França (67mi aprox) e Reino Unido (66mi aprox). Maior que a da Itália (60.5mi), Espanha (46.7mi) e Argentina (44mi).

Nós temos países inteiros desconectados dentro do Brasil. O que sempre me lembra a surrada — e superficial pois ignora muitas complexidades tanto de mercado quanto de natureza humana - história dos dois vendedores de sapatos que foram enviados para vender sapatos em < insira algum lugar onde há um nível de pobreza alarmante >. Um deles liga e diz sorumbático: “Olha, vou voltar. Não dá para vender aqui. Ninguém usa sapatos aqui”. Assim que desligam na sede, o telefone toca. É o outro vendedor, excitado: “Aumenta o estoque”, ele diz, “Vamos vender muito. Ninguém usa sapatos aqui”. É usada como uma motivação em explorar mercados mas vejo também como a frase atribuída ao Einstein de que ou se enxerga tudo como um milagre ou nada é um milagre. Deve haver milhares de oportunidades de negócios, relações e impactos em conectar esse número de pessoas, certamente.

# First World Problems

Nós somos colonizados tecnologicamente. Não apenas à nível das linguagens, mas nossas ferramentas, até mesmo sobre o que discutimos é pautado por desenvolvedores dos países desenvolvidos, e por que não dizer, dos Estados Unidos. E cada vez mais estão se interessando por esses potenciais usuários, e esse interesse sempre possui motivações e devemos examiná-las para criar estratégias sólidas.

A Google tem dado atenção particular para esse termo[3], no I/O de 2019 até mesmo uma palestra foi Build Apps for the Next Billion Users e até mesmo um cargo com “Next Billion Users” no nome. Think tanks estão discutindo em painéis, há whitepapers

The Next Billion Users: Digital Life Beyond the West” foi tema do livro da antropologa digital Payal Arora traz um instigante trabalho de campo sobre os usos da internet para além dos padrões assumidos de utilitarismo. É interessante notar que o NBU traz consigo não apenas um “fato” de entrada de mais usuários, mas uma mudança cultural na própria demografia do espaço online. “Who are the next billion users and what do they want?” se perguntam. Pois muitas das obsessões da rede que inclusive pautam os negócios que são transformados em unicórnios, o que é pautado na mídia ou influenciado pelas vendas e relacionamento das grandess plataformas, é muito diferente do que é a realidade do NBU. Estamos descobrindo, mais uma vez, de novo, abismos entre excluídos e incluídos, agora na própria rede. A antropóloga já escreveu na mídia sobre seuas descobertas.

Surma falando do chamado 'Obama Phone', celulares baratos mas sem muita capacidade no 'Chrome Dev Summit 2019'
Surma falando do chamado "Obama Phone", celulares baratos mas sem muita capacidade](./nbu3.jpeg "Chrome Dev Summit 2019

Óbvio, que o grande foco, ao menos nas conferências em que participo é o tema técnico. Mesmo nos Estados Unidos há uma quantidade muito grande de pessoas utilizando Obama Phones. E para permitir uma boa performance nesses aparelhos com CPU reduzida, é necessário adotar novas técnicas, como por exemplo, deixar a Main thread do navegador o menos bloqueada possível, o que acaba criando como “side effect”, melhores experiências para todos.

Surma em sua palestra no Chrome Dev Summit 2019 exibindo celulares com menores capacidades
Surma em sua palestra no Chrome Dev Summit 2019 exibindo celulares com menores capacidades

É 2020 e agora o desenvolvimento web está prestando atenção nas diferenças sociais de acesso à tecnologia e criando tecnologias e metodologias para otimizar? Ou atingimos um limite de mercado e na expansão se esbarrou em novos problemas, para os quais se demanda novas técnicas? Bem, antes tarde do que nunca.

E isso é claro, sem nem superficialmente explorar a questão mais pragmática de todas: os resultados financeiros. Nada tão simples quanto usuários === dinheiro. Considerando que cada novo usuário de nações em desenvolvimento para a Facebook[4], por exemplo, acrescentam $ 1.22 dólares a cada trimestre, acrescenta 1 bilhão e 220 milhões de lucro a eles (enquanto para você, ganhando 1 real por segundo, levaria mais ou menos 32 anos e 9 meses).

# Impactos em Experiência do Usuário

“Setembro nunca acaba”[5].

Como promover experiências significativas para esses NBU? Há uma razão clara pela qual esse número de pessoas ainda não faz parte da Internet: ou se trata de infraestrutura no país, dispositivos legais ou barreiras socioeconômicas. Os brasileiros se encaixam mais nesta última categoria. São pessoas que vivem com rendas reduzidas e seu contexto implica que quando tiverem acesso, acessarão com a carga cultural que carregam.

O que “funciona” com usuários comuns, talvez não faça sentido nenhum para eles. Muitos possuem capacidades de leitura mais reduzida ou mesmo não possuem o contexto necessário para fazer algum sentido de um menu hambúrguer por exemplo. Os símbolos que utilizamos é como uma linguagem, transmitida pelo uso e pela cultura.

Mais do que nunca precisamos resgatar a ideia de como inserir affordances em nossos produtos. Mas será necessária uma pesquisa aprofundada de entendimento dos usuários. A maioria dos designers, desenvolvedores, gerentes de produtos por melhores que sejam suas intenções sempre imprimem seus vieses cognitivos nas coisas que produzem e levam em consideração seu ponto de vista, sua cultura e sua subjetividade ao avaliar o que está produzindo. Se queremos ser efetivos para estes novos usuários, temos que reconhecer isso, e passar a incorporar mais e mais métricas centradas no usuário — o que nem sempre é fácil.

“[…] o termo affordance refere-se às propriedades percebidas e reais da coisa, principalmente aquelas propriedades fundamentais que determinam exatamente como a coisa poderia possivelmente ser usada. […] Uma cadeira oferece apoio e, portanto, permite sentar-se nela. Uma cadeira também pode ser carregada. […] Affordances fornecem pistas fortes para as operações das coisas. Portas são para empurrar.
Maçanetas são para virar. Aberturas são para inserir coisas. Bolas são para jogar ou quicar. Quando as affordances são aproveitadas, o usuário sabe o que fazer apenas olhando: nenhuma imagem, etiqueta ou instrução é necessária. Coisas complexas podem exigir explicação, mas coisas simples não deveriam. Quando as coisas simples precisam de fotos, rótulos ou instruções, o design falhou ”.

Donald A. Norman, "O design do dia a dia"

# Impactos em negócios

Obviamente, a entrada de um número tão grande de pessoas na Internet significa negócios.

O que essas pessoas estão buscando? Bem, se houver uma resposta única para essa pergunta, quem souber definitivamente estará rico — potencialmente bilionário. Mas, considerando os backgrounds culturais tão diferentes, velocidades diferentes pelas quais esses usuários entrarão — não é como se alguém tivesse um plano claro ou uma Profecia de Nostradamus para determinar quando chegaremos ao NBU, dificilmente haverá uma resposta única e certamente haverá múltiplas formas de entrada.

Provavelmente serão explorados modelos com tickets individuais bem baixos, possivelmente suportados por publicidade. Muito vídeo e áudio — o sucesso tétrico do WhatsApp é massivamente correlacionado com o uso de áudio e imagens para comunicação[6].

Acredito também que mais e mais teremos acesso subsidiado. Lojas e sites oferecendo acesso gratuito a seus sites (em parcerias com empresas), o que tecnicamente fere o Marco Civil, mas pode se tornou uma nova forma de distribuição para alguns players, que com a “popularização” desse novo mercado para as operadoras possa até mesmo, ser apenas mais uma parte do budget de marketing.

Espero que a web se consolide mais com o NUB, também. Já que a não ser uns poucos aplicativos eleitos, a web será o melhor canal de distribuição para se impactar pois a barreira de entrada (espaço em celular, conversão) será muito melhor. Talvez iniciativas de Progressive Web Development demonstram ainda mais o seu custo / benefício em uma abordagem de negócios.

# Impactos em desenvolvimento

Como o software pode se preparar para esses novos usuários? De primeira, o que se chama Adaptive Loading.

Addy Osmani: Respeite a rede e hardware de seu usuário
Addy Osmani: Respeite a rede e hardware de seu usuário

Estive no Chrome Dev Summit 2019 e pude ver a apresentação de Adaptive Loading - Improving the user-experience for millions on low-end devices de Addy Osmani focada em apresentar o c . Basicamente passa por identificar limitações e características dos clientes e adaptar o loading de acordo com as características. Está em uma rede 2G? Não vamos entregar nenhuma imagem. A CPU é mínima, vamos entregar o mínimo de JavaScript para deixar a main thread o mais livre possível. E várias outras estratégias. Nós não precisamos entregar a mesma experiência a todos os usuários, pois mesmo se quisermos, não vamos conseguir. A quantidade de contextos é tão grande em uma enorme diversidade e permutações que simplesmente não existe uma “única experiência” em se tratando de web, apenas desenvolvendo para uma única plataforma, que controla até mesmo o hardware (Olá Apple!) e mesmo assim, não é 100% garantido. Podemos, assim como a ideia de responsividade, e se adaptar aos diversos tamanhos e resoluções de tela, trabalhar para entregar a melhor experiência possível para cada contexto a partir de vários sinais que podemos coletar.

Addy Osmani: Network, memória e CPU são itens para se avaliar
Network, memória e CPU são itens para se avaliar

Addy inclusive disse em sua palestra, “Se você quer ter um site rápido, desenvolva em uma máquina devagar”. O racional desta frase é que a maioria dos usuários (sim, mesmo no Primeiro Mundo, com letras capitais) não possui máquinas com capacidade tão grande quanto as dos desenvolvedores, então se não estiver rápido em sua máquina, certamente não estará na configuração mediada das máquinas de quem acessar seu serviço. Ele disse isso à platéia lotada em San Francisco, como se fosse algo não dito. Estamos em 2020 e os desenvolvedores da cidade com a maior concentração de desenvolvedores do mundo não fala abertamente de como seu contexto é muito diferente dos usuários para o qual estão desenvolvendo. Gosto muito da ideia do Adaptive Loading[7] por que nos faz pensar muito em performance mas sempre centrado no usuário, o que nos abre muitas possibilidades de estratégias e até mesmo de produtos.

O que, em essência, se você para pensar, nada mais é do que a boa e velha acessibilidade, em seu sentido mais amplo. Gosto muito do pensamento de que se existe um trabalho para o desenvolvedor web esse trabalho é tornar o site acessível. Não criamos aplicações para serem acessadas? Devem ser rápidas? Devem estar disponíveis? Devem ter bons posicionamentos em mecanismos de busca? Devem ser compartilháveis? Estamos no negócio da acessibilidade. Então não se tratam apenas de “técnicas” ou “táticas” para uma preocupação maior com a enorme pletora de experiências que nossos usuários estão passando.

E há um bilhão de usuários para entrar na Internet, um outro país inteiro só dentro do nosso Brasil. O que vocês estão fazendo para atingir e atendê-los?


  1. Veja DDD - Data Driven Development ↩︎

  2. Entretanto tais dados devem ser no mínimo abordados com o entendimento de que são agregados, distanciados dos contextos. O referente ao Brasil mesmo não bate exatamente os números. A mais recente pesquisa brasileira, de 2018 “inclui os usuários de Internet, os usuários de Internet no telefone celular e os usuários de aplicações que necessitam de conexão à Internet” em seu indicador ampliado e a frequência de uso é bem elevada, quase que predominantemenet diária. Mesmo não sendo exatamente o mesmo número, está bem próximo de nosso potencial ao verificar o indicador de “indivíduos que informaram ter acessado a Internet pelo menos uma vez na vida, de qualquer lugar” ↩︎

  3. A Google possui todo um blog focado inteiro em tecnologias para o NBU: Next Billion Users ↩︎

  4. How much are you worth to Facebook? Artigo que tem seus bons 4 anos, muita coisa deve ter mudado, a cifra deve ser maior, mas a ideia é a mesma. ↩︎

  5. “Setembro Eterno” ou “Setembro que nunca acaba” foi uma expressão surgida após setembro de 1993 na Usenet, pois foi o marco de quando a America Online (AOL) passou a ofertar acesso à Usenet para seus usuários, o que desestabilizou a cultura existente para fóruns online. Como a Internet não pára de introduzir novos usuários a cada dia, criou-se a expressão de que sempre chegam pessoas sem muita experiência no ambiente. Wikipédia ↩︎

  6. Fonte: Minha cabeça. Óbvio que qualquer fenômeno complexo, reduzir a uma resposta é um forma de simplificação absoluta, mas sim, é fortemente influenciado por esse afeto que eu atribuo o sucesso da ferramenta. ↩︎

  7. Os meus dois componentes open source são todos componentes para se entregar melhores experiências através de estratégias de adaptive loading: React Lite YouTube Embed e React Quicklink. ↩︎